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Coral Gables, o melhor de dois mundos
Todos os visionários são normalmente rotulados de excêntricos, e George Merrick não foi uma exceção. Assim como William Clark idealizou uma cidade no meio do deserto (Las Vegas), George Merrick empenhou-se em erguê-la no interior da exuberante natureza selvagem da Flórida, no tempo em que as panteras, atraídas pelo cheiro de sangue, ainda assediavam as carroças.
Desde aqueles anos de princípios do século XX, o sul da Flórida mudou radicalmente, porém a visão de George Merrick segue intacta, graças à sua tenacidade e à de quem lhe seguiu os passos com os mesmos ideais. Coral Gables é uma das mais belas e prósperas cidades dos Estados Unidos, com uma requintada zona residencial salpicada de parques, praças, campos de golfe e monumentos históricos como o imponente Hotel Biltmore, por cujos corredores e aposentos meio mal-assombrados passaram desde Al Capone aos Duques de Windsor, Ginger Rogers, Judy Garland, Bing Crosby e várias gerações de Roosevelts e Vanderbilts.
O centro comercial, ao estilo de uma cidade européia, emite um burburinho permanente de restaurantes, cafés, livrarias, lojas, teatros e galerias de arte onde se podem passar todos os dias do ano, graças ao clima benevolente. O seu distrito comercial atrai companhias multinacionais como LVMH Watch and Jewelry para o Caribe e a América Latina, American Express, Apple Computer, Bacardi-Martini, Starbucks Latin America, Les Must de Cartier International, Inc., entre dezenas de outras, e a Universidade de Miami (UM), situada em pleno coração de Coral Gables com estudantes de 50 estados norte-americanos e outros provenientes de 110 países anima ainda mais o variado e internacional cenário social da cidade.
“A maior atração é que somos um microcosmo do mundo tanto pela diversidade de estudantes e professores como pelos habitantes da cidade”, afirma Dona Shalala, presidente da Universidade de Miami, cujos avós maternos viveram em Coral Gables.
“É uma das zonas mais belas de Miami, com história e tradição, porém o mais importante é o fato de possuir uma beleza tranqüila, enfatizada pela natureza e com uma bem-cuidada arquitetura”, assegura a figurinista colombiana Silvia Tcherassi.
É uma cidade tão mimada que Tcherassi inspirou-se nela para sua coleção.
Com 44.000 habitantes, “The City Beautiful” (A Cidade Bela) recebe outros tantos visitantes diários que vêm trabalhar, além de 10.000 estudantes que vão e vêm pelo campus da UM.
E apesar desse entra-e-sai diário, a cidade conserva aquele ar provinciano sem congestionamento de tráfico e com um delicado ambiente familiar.
Essa mescla de zonas urbanas com amplos espaços para pedestres, com ruas repletas de árvores, se torna possível por causa da grande oferta de estacionamentos públicos a preços acessíveis ou do trólebus gratuito que percorre as ruas principais com modelos que são réplicas dos originais de um século atrás.
E, acima de todo esse exagero urbanístico, estão, é claro, as pessoas: “Eu gosto mais é da cidade, de sua gente, seu ambiente e, em especial, do fato de tudo se fazer com o pensamento voltado para deixar um bom legado aos nossos filhos”, afirma o entusiasmado prefeito de Coral Gables, Don Slesnick, reeleito em quatro mandatos consecutivos.
Trata-se de um legado marcado por esse ambiente mediterrâneo e espanhol imaginado por George Merrick, um apaixonado pelo sol e pelas cores que contrastam com o azul do céu e da baía que banha parte de Coral Gables: as terracotas, rosadas ou amarelas que revestem os muros de residências e monumentos.
Estas cores também inspiraram o figurinista e modista, Rene Ruiz, estabelecido há quase 20 anos em Coral Gables. Em seu coração, a arquitetura mediterrânea e seu colorido o fazem recordar sua Cuba natal pelo sentido de familiaridade. “Minha nova coleção para o final de 2008 inspira-se no entardecer de Coral Gables; aqueles azuis, vermelhos e roxos são incríveis”, afirma Rene, que destaca também a importância do sentimento de comunidade: “Este é um lugar de gente com raízes, não de passagem ou de temporada. Há um sentimento de permanência”.
Além de projetar sua cidade ideal, Merrick também amava tudo aquilo que considerava exótico; e ele esboçou os “Pueblos Internacionales”, agrupamentos de moradias que representam diversas culturas. Construiram-se vários em diversas partes da cidade, que hoje se erguem em seus impecáveis estilos francês, chinês, italiano e africânder.
A internacionalização de Coral Gables não termina com seus “pueblos”. Há diversos monumentos cujas motivações também tiveram origem em diversas partes do mundo. A torre do grandioso Hotel Biltmore é uma réplica da Giralda da Catedral de Sevilha, na Espanha; a Torre de Água se inspirou em um farol mediterrâneo; e a Piscina Veneziana, como o nome indica, lembra antigos banhos venezianos com um “toque tropical”.
As praças e arcadas que salpicam a cidade complementam o “estilo Merrick” como o obelisco da Fonte de Soto, projetado à semelhança dos antigos obeliscos egípcios, a Prefeitura de estilo neoclássico greco-romano e a escola primária de Coral Gables, de estilo mourisco.
“Temos o melhor dos mundos, uma cidade pequena, agradabilíssima, e, ao mesmo tempo, uma das mais cosmopolitas dos Estados Unidos. É a combinação perfeita”, assegura Gene Prescott que, em seus 16 anos como presidente do Hotel Biltmore, já viu pisarem seus tapetes dezenas de celebridades do mundo do cinema, da televisão ou da esfera política, como candidatos presidenciais. O ex-presidente Bill Clinton continua a freqüentá-lo, empolgado com o campo de golfe.
Para George Merrick, Maiorca, Sevilha, Cartagena ou Palermo não representavam unicamente cidades da Espanha ou da Itália, mas foram símbolos de seu ideal americano e, como tal, modelou a arquitetura e o ambiente, e ainda deu nomes às ruas. A casa onde passou a infância, construída com material nativo, o coral, deu origem ao nome de sua cidade dos sonhos. Sua residência, magnificamente restaurada, é uma visita obrigatória.
No início da era dos anos 40, outro visionário, George K. Zain, idealizou uma rua comercial de luxo, a atual Miracle Mile (Milha Milagrosa), o centro nervoso de Coral Gables; a partir dela, se alastram os restaurantes, as galerias de arte e as lojas do comércio. Uma boa parte dessas lojas se especializa em vestidos de noivas e respectivos acessórios, o que torna a Milha Milagrosa em um pólo de atração para se encontrar tudo que seja imprescindível nesse dia tão especial. Numerosos negócios de modistas e mobiliário de marca complementam esse panorama luxuoso ao qual se uniu, em íntima proximidade, o imponente e elegante centro comercial de Village of Merrick Park.
Em volta da “Milha” lateja o espírito da cidade e existe uma oferta cultural “milagrosa” de quatro teatros e três livrarias para uma cidade tão pequena, onde se pode assistir tanto a um musical como a uma peça em espanhol ou à assinatura do autógrafo do autor da moda no frontispício de seu último livro. Somem-se a isso dúzias de galerias de arte em todos os estilos que, além de seu horário regular, abrem as portas até muito tarde na primeira sexta-feira de cada mês. Nessas “sextas de galeria”, centenas de pessoas passeiam de galeria em galeria — algumas oferecem refrescos e salgadinhos — e assim se cria uma ocasião excepcional para socializar. O trólebus gratuito circula até bem tarde para facilitar o transporte dos aficionados de arte.
Não podia faltar a natureza única de Coral Gables, concentrada no Jardim Botânico Tropical de Fairchild, onde se preservam tesouros botânicos combinados com arte. Entre plantas e árvores majestosas, se expõem monumentais esculturas do mestre colombiano Fernando Botero, as espetaculares concepções em vidro de Dale Chihuly, ou as inconfundíveis obras do artista pop Roy Lichtenstein.
Justamente ao lado desses jardins formosos, se encontra outra beleza natural de Coral Gables: o Matheson Hammock Park, uma laguna em frente ao mar que recebe a água das marés da baía. O parque natural inclui também marina, restaurante, serviços e a possibilidade de passear pela areia branca entre palmeiras e rochas de coral.
Marc A. Berenfeld, presidente da Câmara de Comércio de Coral Gables, não hesita em afirmar que George Merrick, hoje, “se sentiria orgulhoso ao comprovar seu sonho transformado em realidade: uma cidade mediterrânea em uma comunidade multinacional e multicultural”.
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